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As Tentações de Cristo

I - Antes de começar seu ministério terreno, Jesus foi batizado no rio Jordão. Ao sair da água, desceu sobre ele o Espírito Santo e

ouviu-se a voz do Pai que dizia: "Este é o meu filho amado, em quem me comprazo" (Mt.3.17). Aquele texto mostra a trindade reunida.

Depois da imersão na água, Cristo enfrentaria a areia seca e o sol escaldante. Após a experiência maravilhosa com o Pai, Jesus precisava ter um encontro com o inimigo. Foi então para o deserto (Mt.4.1), onde jejuou durante quarenta dias. Da mesma forma acontece conosco. Além dos momentos gratificantes, de regozijo e tranqüilidade, temos também os tempos de provação. Vivemos com Deus, mas enfrentamos o Diabo constantemente. Não podemos nos esquivar do confronto. Afinal, devemos estar preparados, como soldados, para o combate. Situações boas e ruins se revezam em nossas vidas, e não devemos estranhar que isto aconteça.

Após o jejum, o Diabo aparece. É algo estranho para nós, principalmente porque desejamos resultados positivos e imediatos nos nossos jejuns. Algumas pessoas usam a abstinência alimentar como se fosse moeda para negociar com Deus. Imaginam que o jejum possa criar direitos a serem exigidos (Is.58.3). Pelo contrário, esse deve ser um ato de renúncia, consagração, humilhação pessoal e culto a Deus, sem que se espere algo em troca.

Veio então Satanás com o propósito de impedir a obra de Cristo na terra. Esta era uma de suas intenções. Ele não pode destruir diretamente nenhum dos filhos de Deus, mas, através das tentações, procura levar-nos à auto-destruição. Além disso, o seu desejo é afrontar Deus, usurpando autoridade e adoração.

Assim, ele chega e diz: "Se tu és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães." (Mt.4.3). Lembremos-nos que, no batismo, o Pai declarou a filiação divina de Cristo. Portanto, após a proclamação da palavra de Deus, vem a palavra de Satanás para questionar e contradizer. O mesmo aconteceu no jardim do Éden. Deus deu claras instruções para Adão e Eva. Depois, veio a serpente para falar algo diferente. Hoje, também somos bombardeados por opiniões, conceitos, sugestões e conselhos que tentam conduzir a nossa vida por caminhos diferentes da orientação celestial.

Temos tantas palavras de Deus a nosso respeito, na bíblia e fora dela. São profecias e promessas, por meio das quais o Senhor declara a nossa condição de filhos. Temos ainda o testemunho do Espírito Santo em nossos corações (Rm.8.14-17). Contudo, Satanás nos ataca com suas palavras malignas: "Se tu és filho de Deus..."

A conjunção "se" pode sugerir uma dúvida. Jesus nunca duvidaria de sua condição de filho, mas nós podemos viver momentos de incerteza, se nos deixarmos levar pela linha de raciocínio do inimigo. Para isso, ele pode usar pessoas que questionam a nossa fé, de maneira crítica e destrutiva. Isto aconteceu também quando Cristo estava na cruz (Mt.27.40). Para o povo daquela época, não parecia lógico que alguém que se dizia filho de Deus pudesse sofrer e morrer.

Mas, quais são as verdadeiras evidências da nossa filiação divina? Alguns cristãos imaginam que, por serem filhos de Deus, têm direitos materiais adquiridos, devendo ser ricos, sempre saudáveis e imunes ao sofrimento. Tais expectativas são ilusões anti-bíblicas. Se aceitarmos esse tipo de doutrina, poderemos questionar nossa adoção espiritual diante das dificuldades que nos acometem. A bíblia não prometeu uma vida fácil e sempre agradável para os filhos de Deus. É certo que teremos vitórias, mas, para isso, haveremos de enfrentar muitas lutas nas mais diversas áreas (João 16.33). Algumas adversidades terminam e outras começam. Só deixarão de existir quando entrarmos na glória celestial.

A frase satânica parece ter um tom sarcástico. É como se ele dissesse: "Se tu és filho de Deus, por quê estás com fome? Por quê estás sem comida? Só te restam estas pedras"? Aquela condição de escassez não alterava em nada a posição espiritual de Cristo ou sua identidade.

O que garante que nós também somos filhos de Deus? É o fato de termos sido adotados por ele. Éramos, por natureza, filhos do diabo (João 8.44), filhos da desobediência (Ef.2.2), filhos da ira (Ef.2.3). Contudo, quando recebemos o Senhor Jesus como nosso Salvador pessoal, tornamo-nos filhos de Deus (João 1.11-12; I João 5.1). Este é um fato consumado que conhecemos através da bíblia e apropriamos quando cremos. O inimigo tenta plantar a dúvida em nossos corações, mas devemos proclamar a palavra de Deus, que é o combustível da nossa fé. Não é a vultosa conta bancária que testifica que somos filhos, mas é o que Deus disse a nosso respeito nas Sagradas Escrituras. Sabemos que somos filhos do Senhor (I João 3.1-2), e isto não depende das circunstâncias, dos sentimentos, das emoções, ou das posses materiais.

O pai dá boas dádivas aos filhos (Mt.7.9-11), mas a filiação também não depende disso. Não devemos duvidar da nossa condição espiritual pelo fato de Deus não nos ter dado alguma coisa que lhe pedimos. Satanás disse: "Se tu és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães". Jesus não precisava fazer milagres para provar nada ao Diabo. Nós também não precisamos ficar preocupados em oferecer esse tipo de prova para aqueles que nos rodeiam. Uma manifestação de poder não constituiría prova suficiente. Havia outras evidências muito mais contundentes e valiosas.

O filho tem a natureza do pai. Ele se parece com o pai. A vida e o caráter de Jesus eram os maiores testemunhos de que ele era e é o Filho de Deus. Da mesma forma, nosso vínculo com o Senhor deve ser demonstrado através do nosso caráter e da nossa vida, sendo imitadores do Pai, manifestando sua natureza e suas virtudes através das nossas palavras e ações (Ef.5.1; II Pd.14; Gal.5.22).

Acolher a dúvida pode ser o primeiro passo em direção ao abismo. O inimigo, que jamais poderá ser filho de Deus, quer minar a nossa fé, fazendo-nos desviar do caminho que o Senhor traçou para nós. A resposta de Jesus foi uma citação bíblica: "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Dt.8.3). Nós também precisamos estar cheios da palavra de Deus, pois ela é uma das armas que usaremos nos confrontos com o adversário. Assim, não ficaremos mudos diante dele. Jesus venceu e nós podemos vencer também porque "em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Rm.8.37).

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"Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. Chegando, então, o tentador, disse-lhe: Se tu és Filho de Deus manda que estas pedras se tornem em pães. Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt.4.1-4).

Depois de jejuar quarenta dias, em "retiro espiritual", longe de tudo e de todos, Jesus estava faminto. Usamos a expressão "fome" quando ficamos algumas horas sem comer. Entretanto, Cristo esteve muitos dias em jejum e precisava se alimentar. Ele sentiu o que sentem os miseráveis da nossa sociedade, quando lhes falta o mantimento.

O texto fala de dois alimentos: o pão e a palavra. Portanto, estão em foco duas dimensões da vida humana: física e espiritual. Muitas vezes, focalizamos apenas o que é terreno e esquecemos o celestial. Vivemos correndo atrás do nosso sustento material e deixamos em segundo plano o alimento do espírito. Valorizamos o que é temporal e desprezamos o eterno.

Jesus disse: "Nem só de pão..." Muitos buscam só o pão, o alimento perecível. Assim, o espírito dessas pessoas fica debilitado ou pode ser que esteja morto. Por outro lado, Jesus não disse que o homem viverá sem pão. Portanto, precisamos dos dois: do pão e da palavra de Deus.

Contudo, é preciso encontrar a ordem certa de prioridades: primeiro a palavra e depois o pão. Por isso, Jesus jejuou. O jejum é a renúncia espontânea ao legítimo direito de se alimentar, numa demonstração de que a vida espiritual é prioritária.

Se Jesus jejuou, nós precisamos fazer o mesmo. Ele não o fez apenas por algumas horas, mas por muitos dias. Nem todos têm condições de jejuar por tanto tempo, mas o certo é que devemos fazer investimentos significativos na nossa vida espiritual, respeitando as limitações individuais. Algumas pessoas estão impossibilitadas de fazê-lo, por questões de saúde. Entretanto, os cristãos que, podendo jejuar, não o fazem, evidenciam ignorância ou, talvez, desinteresse por uma prática de grande valor diante de Deus e uma arma contra o mal.

Depois dos quarenta dias, veio Satanás tentando colocar o foco de Jesus no alimento físico e na vida terrena, como se ele precisasse obter pão a qualquer custo e imediatamente. Ainda que Jesus tivesse uma fome mortal, ele não morreria, a não ser que uma palavra do Pai o permitisse. O inimigo deseja que estejamos totalmente ocupados e preocupados com a vida física, de modo que todos os nossos recursos, tempo e energia sejam direcionados para o que é terreno.

Alimento e vida estão diretamente relacionados. Assim como o nosso corpo precisa do alimento para viver e funcionar plenamente, assim acontece com o nosso espírito. A palavra de Deus traz sustento espiritual. Ela nos renova, fortalece e capacita para fazermos a vontade do Senhor. Notamos, portanto, quão importante é a leitura e o estudo da bíblia para todo aquele que já foi vivificado e salvo pelo Senhor Jesus.

O texto diz: "toda palavra que sai da boca de Deus". É dela que necessitamos. Contudo, muitas palavras chegam aos nossos ouvidos e elas provêm de outras origens. São dogmas, falsas doutrinas, orientações religiosas, tradições ou, simplesmente, conceitos mundanos. Esse é um tipo de alimento que não sai da boca de Deus, podendo, pois, ser prejudicial. Quando somos leitores e estudantes das Sagradas Escrituras, estamos prontos para julgar todos os demais ensinamentos que chegam a nós. Foi o que Jesus fez em relação às palavras do tentador.

Após o fracasso da proposta referente aos pães, o inimigo mudou de estratégia. Tendo Cristo citado a importância da palavra de Deus, a segunda tentação foi idealizada a partir de um texto bíblico, procurando motivar uma falsa espiritualidade:

"E disse-lhe: Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito; e eles te susterão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra" (Mt.4.11).

Seria aquela palavra, citação do Salmo 91.11, um alimento aceitável para Cristo? Não. O inimigo inseriu ali um pouco do seu veneno. Ele distorce as Escrituras para enganar e destruir. Por isso, o simples fato de alguém conhecer a bíblia e citar seus versículos não nos deve impressionar, como se isto bastasse para garantir a confiabilidade da pessoa.

Vemos ali as palavras de Deus na boca do Diabo. Contudo, Jesus disse: "... toda palavra que SAI da boca de Deus." Nossa vida espiritual não se fundamenta apenas na palavra escrita, mas na palavra falada por Deus; Não apenas na letra, mas no Espírito (IICo.3.6). Isto pressupõe uma experiência viva com o Senhor, como aquela que Cristo teve no batismo (Mt.3.16-17) e também no início do capítulo 4, mostrando que o Pai e o Espírito Santo estavam presentes e participavam da vida de Jesus.

A bíblia é de fundamental importância, mas não por si mesma, não isolada, como se fosse um livro mágico ou um amuleto. Não basta deixá-la aberta sobre a mesa, como se isso espantasse os maus espíritos ou pudesse trazer alguma bênção. Seus versículos não são fórmulas místicas e automáticas. Não se deve tentar usar a palavra de Deus sem Deus ou sem um compromisso com ele. O resultado pode ser uma experiência com Satanás. Muitas religiões usam a bíblia, mas isso não significa que Deus tenha ali alguma participação.

Da mesma forma, alguns estudam a teologia, mas não experimentam a ação de Deus em suas vidas. É como o filho que lê e coleciona as cartas do pai, mas nunca o viu nem o conhece; ou semelhante a alguém que estuda a fórmula do chocolate, mas nunca o experimentou.

Diante daquela proposta satânica baseada na bíblia, Jesus respondeu: "Também está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus" (Mt.4.7). Note-se que o uso que Satanás faz da bíblia está voltado para o benefício egoísta e a cobrança de respostas divinas imediatas. A ênfase de Jesus sobre a mesma palavra está na questão do relacionamento. Ele mostrou que, embora a palavra de Deus estivesse sendo usada, a atitude não estava coerente com o comportamento de alguém que reconhece o senhorio do Pai. Se ele é o "Senhor teu Deus", nós não estamos em condições de determinar quando ele deve agir ou quando os anjos devem trabalhar.

Na terceira tentação, o Diabo ofereceu os reinos do mundo, com poder, riqueza e glória humana para alimentar o ego de Jesus. Ele ainda faz ofertas desse tipo para todos aqueles que estão ou desejam estar em posição de destaque.

Diante de tantas estratégias malignas, como venceremos? Alimentando o nosso espírito com a palavra de Deus, tendo também um compromisso vivo com ele, aliando conhecimento e prática, através da obediência. Precisamos conhecer a bíblia e ter também uma experiência pessoal com Jesus Cristo, recebendo-o como Salvador e Senhor. Caso contrário, faremos mau uso das Escrituras. Além disso, o propósito da nossa vida deve ser a glorificação de Deus e não do nosso próprio nome. Vivemos para estabelecer o reino dele e não o nosso. Estas foram as diretrizes do ministério e da vida do Senhor Jesus. Por isso, ele venceu o tentador em todos os aspectos.
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Antes da sua manifestação pública, é provável que Jesus tenha trabalhado com José, na carpintaria. Chegou o dia, porém, quando ele abandonou tudo para fazer a obra do Pai celestial. Certamente, contrariou as expectativas da família e da sociedade.

Saiu para se encontrar com o primo, João Batista, às margens do rio Jordão, onde foi batizado (Mt.3). Depois, desapareceu por quarenta dias, durante os quais esteve no deserto se preparando para a tentação e para o ministério que se aproximava (Mt.4). Em seguida, deixou sua casa em Nazaré e mudou-se para Cafarnaum (Mt.4.13), onde começou a escolher seus discípulos.

Quando lemos a bíblia, inclusive a história de Cristo, não devemos imitar os fatos ali narrados, de modo literal e sem entendimento. Ninguém precisa largar o emprego e ir para o deserto. Precisamos, sim, seguindo as melhores práticas da hermenêutica, extrair princípios espirituais contidos no texto, aplicando-os à nossa vida, dentro do que for necessário e condizente com cada situação particular, dentro do nosso contexto histórico e cultural.

Nem todos vão abandonar o trabalho secular para se dedicarem ao ministério. Esta é uma questão que pode variar de pessoa para pessoa, dependendo da ordem de Deus para cada um. Por outro lado, o cristão não pode ser tão ocupado com as coisas materiais, sejam profissionais ou de outro tipo, que não tenha tempo para Deus e para a sua obra.

Jesus se afastou de tudo, durante quarenta dias, para se dedicar às questões espirituais. Precisamos fazer isso, de vez em quando. Todo o nosso tempo pertence a Deus, mas é bom que dediquemos uma parte dele, não necessariamente quarenta dias, de modo exclusivo para as práticas relacionadas à fé: seja a leitura, o estudo bíblico, o louvor, a adoração, a oração e o jejum. Naqueles dias, Jesus não fez nem o que consideramos "obra de Deus". Foi apenas um tempo de consagração total. Depois veio a obra (At.13.1-3).

Vejamos outros conceitos que podemos aprender do texto de Mateus 4 para aplicação na atualidade: Se Jesus foi tentado, nós também seremos (Heb.2.17-18). Não significa que passaremos por tentações idênticas às dele. Nunca seremos provocados a transformar pedras em pães ou a pular do pináculo do templo, ou a receber o controle sobre todos os reinos do mundo. Todavia, existem princípios espirituais em cada tipo de tentação e esses elementos estão presentes na nossa experiência, embora as tentações que enfrentamos sejam diferentes daquelas, numa escala menor. Também temos oportunidades para algumas "transformações" inadequadas, alguns "saltos" precipitados e muitas "ofertas" atraentes.

O inimigo que enfrentamos é o mesmo que o Mestre enfrentou. As estratégias e propósitos malignos ali detectados ainda se manifestam hoje.

Quando e como

As tentações de Cristo estão sempre relacionadas ao tempo e ao modo. Jesus haveria de comer pão (Mt.26.26), mas não naquela hora nem seguindo a "receita" no inimigo. Ele seria servido pelos anjos (Mt.4.11), mas não através de uma tentativa de suicídio. Ele teria o domínio sobre todos os reinos do mundo (Ap.11.15), mas não pelas mãos de Satanás. Tudo seria conquistado no tempo certo e da maneira correta. Jesus precisaria esperar, demonstrando paciência e perseverança, seguindo os trâmites normais, pagando o preço justo, dentro do itinerário previsto pelo Pai, sem atalhos ou caminhos alternativos.

Estes aspectos também permeiam as tentações que enfrentamos hoje. Muitas experiências da vida são necessárias e válidas, desde que aconteçam no tempo certo e do modo correto (Ec.8.5-6). Discernir o tempo e o modo é uma das maiores utilidades da sabedoria. A pressa e a precipitação fazem com que muitas pessoas antecipem fatos da vida, para os quais não estão preparadas. Por exemplo, podemos citar as relações sexuais precoces, fora do matrimônio, talvez seguidas pela gravidez indesejada que, em alguns casos, termina em aborto.

A hora e a maneira de se realizar algo serão fatores determinantes para que aquilo seja bom ou mau para nós (Ec.3.1-8).

Outra característica das tentações de Cristo é que todas estão relacionadas ao "eu". O inimigo sugere benefícios pessoais em cada situação, seja no caso dos pães, do socorro angelical ou do governo mundial. Aparentemente, o homem Jesus estaria usufruindo de tudo, como o centro das atenções. Entretanto, existe a vantagem de Satanás em cada fato, pois, em caso de realização daquelas ações, ele levaria o crédito. Dele seriam o planejamento e a direção. Teria, portanto, uma posição de autoridade sobre Cristo. No caso do controle sobre os reinos do mundo, Jesus seria o rei, mas Satanás seria ainda superior, em posição de "deus", pois haveria de ser adorado (Mt.4.9).

Portanto, em toda tentação ou pecado, por trás dos aparentes benefícios humanos, existe o ganho discreto, porém maior, de Satanás. Depois, o benefício acaba, mas o dano espiritual permanece. É o que acontece com alguns produtos que compramos. A mercadoria acaba, mas continuamos pagando as prestações. Cuidado! O sabor do pecado termina rapidamente, mas a culpa fica, as conseqüências permanecem e o castigo pode ser eterno, caso não haja arrependimento e conversão.

O inimigo utiliza coisas boas para tecer suas teias malignas. Nas três tentações observamos que ele procurou desviar o poder sobrenatural (Mt.4.3), a palavra de Deus (Mt.4.6) e a adoração (Mt.4.9) para alvos inadequados. Note-se a sutileza da tentação e o quanto devemos vigiar.

Pecam aqueles que usam o poder, mesmo dos dons espirituais, para obter vantagem pessoal.

Pecam aqueles que pregam a palavra de Deus com propósitos egoístas, com ganância e engano.

Pecam aqueles que tomam para si a adoração que é devida a Deus, usurpando a glória e a honra.

Pecam aqueles que adoram aos ídolos, porque está escrito: "Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele darás culto".

Vejamos outros aspectos importantes: O texto envolve o saber, o crer e o agir. A palavra de Deus era do conhecimento de Cristo, mas Satanás também a conhece de cor. A ignorância humana em relação às Escrituras já deixa o indivíduo em grande desvantagem diante do tentador. Quando ele diz "está escrito", precisamos ter uma resposta adequada.

Contudo, além de saber, é necessário crer. Jesus cria na bíblia, mas o Diabo também, assim como crê em Deus (Tg.2.19). Então a luta se trava em um nível mais alto. Satanás tenta se aproveitar da fé de Cristo, conduzindo-o a uma experiência sobrenatural ilegítima (Mt.4.6). Algumas pessoas, pelo fato de terem fé, querem mandar em Deus.

Depois, vem o campo das ações. Podemos saber e crer, mas isto de nada adiantará se falharmos na hora de realizar. Esse é o momento crucial do confronto com o mal. A palavra de Deus e a fé serão determinantes na nossa decisão de agir ou não.

Há tempo para esperar e há tempo para agir. A ação é muito estimulada na sociedade moderna, sendo, de fato, muito importante em diversos momentos. A preguiça e a inércia constante podem ser nocivas. Entretanto, precisamos tomar cuidado com o ativismo, pois muitos atos podem ser pecaminosos, ainda que pareçam positivos.

Cabe aqui uma reflexão sobre as obras mortas: agir sem conhecimento, agir sem fé ou fazer sem ser.

É bom notar que Jesus não agiu na hora em que o inimigo queria. Ele não transformou pedras em pães, não pulou do templo, não se prostrou para adorar, nem assumiu o governo mundial.

Em algumas situações, devemos nos abster da ação. Jesus se manteve impassível, quieto, esperando o tempo determinado pelo Pai para realizar as suas obras (João 2.4). Ele não foi precipitado nem um ativista inconseqüente.

Muitos servos de Deus erraram por não saberem esperar. Como exemplos notáveis de precipitação podemos citar: Abraão, quando gerou Ismael; Moisés, ao matar o egípcio; e Pedro, que cortou a orelha de Malco.

Na continuação do capítulo 4 de Mateus, lemos sobre o início do ministério de Jesus. Então, ele começou a cumprir uma "agenda" repleta de atividades voltadas para o evangelismo, a cura, a libertação e o discipulado. Chegou a hora de trabalhar.

O tempo da espera é uma época de tentações, quando o Diabo nos estimula à ação antecipada.

Cristo venceu Satanás. Sua vitória é o ápice do que podemos aprender daquele episódio, indicando que nós também podemos vencer. Não precisamos ser derrotados, porque "maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo" (I João 4.4).
IV -
Lemos, no evangelho de Mateus, que Jesus teve fome (Mt.4.2). Esse registro serve como uma das provas da humanidade de Cristo. Embora fosse Deus, ele também era plenamente homem (I Tm.2.5), estando sujeito, voluntariamente, às mesmas limitações físicas que possuímos.

Naquela tentação, quando Satanás sugeriu que Jesus transformasse pedras em pães, a proposta era que ele usasse seu poder divino, abandonando a condição humana. Naquele processo, descrito no capítulo 4 de Mateus, o Mestre estava nos dando exemplo de resistência diante dos problemas e das tentações. A situação envolvia todas as dificuldades próprias do deserto. Além disso, destaca-se a fome como um desafio de grande significado.

Se Jesus transformasse pedras em pães, seu exemplo perderia a utilidade para nós, pois jamais poderíamos, como homens comuns, fazer o mesmo. Não podemos dizer que Jesus venceu as tentações pelo fato de ser Deus. Se fosse assim, estaríamos licenciados para a prática do pecado, uma vez que não temos poderes divinos. Jesus não usou suas prerrogativas divinas em nenhum momento de tentação. Ele resistiu como homem, obediente e comprometido com o Pai, agindo de um modo que nós também possamos agir.

A hora da tentação.

Quando Jesus teve fome, o tentador chegou (Mt.4.2). A hora da necessidade é bastante oportuna para a tentação. Diante de uma carência real ou imaginária, legítima ou não, afetiva, financeira ou de outro tipo, o inimigo sempre tem uma proposta tentadora, uma oferta, uma solução imediata. Ele só não diz o preço ou a conseqüência.

Esaú vendeu seu direito de primogenitura no momento da fome (Gn.25.29). Seu apetite era algo legítimo. Saciá-lo era um direito. Entretanto, o preço era muito alto. Ele poderia comer mais tarde, mas o prato da tentação já estava pronto, em mãos. Muitas pessoas, na busca do suprimento de suas necessidades legítimas, acabam aceitando ofertas malignas que envolvem transgressão, pecado ou até mesmo o crime. Existem opções melhores, mas exigem esforço pessoal e podem demorar. Queremos soluções fáceis e rápidas. Este é o tipo de mercadoria que o Diabo oferece.

Eva, diante da árvore do conhecimento do bem e do mal, não tinha uma necessidade real, mas apenas imaginária. Ela não precisava daquela árvore, do seu fruto, ou do conhecimento que ele produziria. Assim também, muitas vezes ficamos envolvidos com falsas necessidades que podem se tornar laços espirituais. Por exemplo, uma menina de 13 anos não precisa de um namorado, mas ela imagina que sim, e isto pode ser a causa de um problema para a vida toda.

Muitas propagandas comerciais tentam criar falsas necessidades em nossas vidas. De repente, achamos muito necessária ou até fundamental a aquisição de determinado produto, seja um veículo, uma viagem, etc. Quem não se controla nessa área, acaba se comprometendo financeiramente e adquirindo muitas dores de cabeça.

A especialidade do inimigo é trazer rapidamente aquilo que precisamos ou pensamos precisar. É a hora da tentação. Se temos fome, ele nos traz um "falso pão", uma pedra que não poderemos digerir.

Satanás chega sorrateiramente, sem alarde. Ele vem com aparência pacífica, embora suas palavras sejam armas camufladas. Sua aproximação é um ataque disfarçado. No primeiro momento, ele não parece ameaçador. Mostra-se até interessado no bem estar do homem, sugerindo um alimento para matar sua fome. O inimigo das nossas almas se disfarça de amigo, ou até mesmo de anjo de luz, com o objetivo de nos enganar e destruir (II Co.11.14). Ele também usa pessoas com essa estratégia. São aqueles que, dizendo-se nossos amigos, querem nos conduzir ao pecado (Pv.1.10-11).

Precisamos estar atentos. Palavras são armas. Jesus foi atacado por Satanás no deserto. Foi um ataque verbal. Aquilo que ouvimos pode mudar nossa vida, quando acreditamos e aplicamos, seja para o bem ou para o mal. O maior problema é quando o mal parece inofensivo. Que mal existe em transformar pedras em pães? O mal está em seguir um conselho de Satanás. O propósito do inimigo era que Jesus, sendo filho de Deus, agisse de modo independente do Pai. Esta era também a essência da tentação no Éden. O fruto proibido traria conhecimentos que, supostamente, tornariam o homem igual a Deus e, portanto, independente dele.

Na hora da necessidade precisamos vigiar e dizer "não" às ofertas malignas. Geralmente, nós sabemos identificá-las. Nossa consciência nos alerta. Deus nos fala. A bíblia nos ensina. Nossos pais ou líderes nos aconselham.

Vivemos na sociedade do prazer e do imediatismo. Muitas vozes nos dizem que devemos realizar nossos desejos e, quanto mais rápido, melhor. Assim, alguém vai receber logo o pagamento. Se não era o momento apropriado para nós, problema nosso. Precisamos aprender a esperar o tempo certo. A paciência é uma virtude preciosa.

Se Jesus estava com fome, é certo que ele iria comer. Entretanto, não seria na hora escolhida pelo Diabo. Também não seria aceito o cardápio do inimigo. Jesus sabia esperar o momento certo e o alimento certo.

Tendo vencido o adversário, Jesus foi servido pelos anjos (Mt.4.11). É possível que eles tenham trazido o alimento celestial que Cristo esperava. Não precisamos comer as pedras do deserto. Na hora certa, Deus nos dará o suprimento para as nossas necessidades.
V -
Quando andamos com Deus, passamos por lugares maravilhosos e também por locais perigosos e desagradáveis. Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo Diabo (Mt.4.1). Isto pode parecer muito estranho para nós, mas a tentação é necessária. Se não fosse assim, Adão e Eva também não seriam tentados. Deus permitiu a presença de Satanás no Éden para que a tentação acontecesse. Ele poderia ter colocado querubins cercando o jardim para que o inimigo não se aproximasse. Entretanto, era necessário que o homem tivesse oportunidade de pecar.

Se não houvesse tal possibilidade, o ser humano serviria a Deus como se fosse um robô programado para ser santo. Tendo chance de escolher entre dois frutos, o homem poderia ser um servo do Senhor por opção própria. Infelizmente, Adão e Eva fizeram a escolha errada e pecaram.

Da mesma forma, Jesus precisava ter oportunidade de pecar para que pudesse rejeitar o pecado. Assim, sua opção pessoal pela santidade seria demonstrada na prática. De fato, ele foi colocado em situação semelhante àquela do Éden. Por isso, foi chamado "o último Adão" (I Co.15.45).

Isto não significa que devamos criar oportunidades para pecar. De modo nenhum. Entretanto, o certo é que as oportunidades surgirão sem que as criemos. Muitas tentações são meramente humanas (Tg.1.13-15). São criadas pela própria pessoa, ou por outras, sem que haja alguma participação demoníaca. Os homens caem sozinhos com tanta facilidade que o Diabo nem sempre precisa comparecer.

A tentação ocorre, não para que Deus nos conheça através das nossas escolhas, mas para que nós nos conheçamos. De fato, não sabemos o quanto somos fortes ou fracos, a não ser que sejamos tentados. É um tipo de teste para a nossa fé, amor, compromisso e fidelidade. Certamente, Jesus já se conhecia de modo suficiente, mas ele precisava demonstrar na prática seu compromisso com o Pai, em obediência concreta. Em situações assim, o Diabo também passa a nos conhecer melhor. No livro de Jó aprendemos que o inimigo tem idéias erradas a respeito dos servos de Deus (Jó 1.9-11; 2.4). Quando vencemos a tentação, Satanás é derrotado e envergonhado.

A tentação de Cristo foi importante ainda por outro motivo: ele precisava passar por situações semelhantes às nossas. Se ele nunca fosse tentado, não seria nosso legítimo representante. "Pelo que convinha que em tudo fosse feito semelhante a seus irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas concernentes a Deus, a fim de fazer propiciação pelos pecados do povo. Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados" (Heb.2.17-18).

O tentador e suas artimanhas

Satanás é persistente. No texto de Mateus 4, vemos três tentações consecutivas. O inimigo não desiste facilmente. Mesmo no final, ele se ausentou só por algum tempo, até que houvesse outro "momento oportuno" (Lc.4.13). Durante a vida de Jesus, outras tentações aconteceram, até mesmo quando estava na cruz (Mt.16.22-23; 27.40-44). Outros exemplos da insistência diabólica estão na história de Jó e na visão de Apocalipse 12.

O Diabo é ardiloso e utiliza estratégias diversificadas. Começa de forma discreta, com aparência de amizade e vai se mostrando cada vez mais ousado. As tentações são de vários tipos, começando das mais "fracas" até as mais "fortes", das mais simples até as mais absurdas. Não é assim que fazem também os homens sedutores na conquista de suas vítimas? O caçador também é uma figura oportuna. Começa alimentando as aves para conquistar confiança ou garantir a freqüência das mesmas ao local de captura. Depois, elas se tornam alimento para o predador. A primeira tentação de Cristo, no deserto, envolvia simplesmente uma questão de pedra e pão, coisas comuns deste mundo. A segunda já evoluiu para questões espirituais, envolvendo Deus e o anjos. Depois, Satanás deixou os rodeios e pediu para ser adorado. Quanta ousadia!

As tentações fazem parte de um processo bem planejado pelo maligno. Jesus não se deixou envolver por suas ciladas, mas nós muitas vezes nos deixamos levar. A primeira tentação é "menos tentadora". Rejeitar um "falso pão" pode ser relativamente fácil. A última, entretanto, oferecia todos os reinos do mundo e a glória deles. Satanás aumentou bastante sua oferta na tentativa de "comprar" a obediência de Cristo e sua adoração, ao mesmo tempo em que ganharia também as almas de todos os homens, pois a obra da salvação estaria comprometida.

Nas nossas tentações também, o inimigo vai aumentando suas ofertas e testando nossa resistência. Algo semelhante aconteceu com o profeta Balaão. Inicialmente, rejeitou "o preço dos encantamentos" (Num.22.7), recusando a proposta de Balaque para amaldiçoar Israel. Depois, diante da promessa de ser grandemente honrado no reino de Moabe, Balaão cedeu (Núm.22.17; Jd.11; IIPd.2.15). Satanás é um negociador habilidoso. É um comerciante de almas humanas, com as quais deseja povoar o inferno.

Portanto, não podemos relaxar depois de uma vitória, pois um novo ataque virá e pode ser mais forte. Gideão venceu os midianitas (Jz.7.23-25) e resistiu a tentação do poder (Jz.8.22-23). Depois, foi derrotado pelas riquezas, pela religiosidade equivocada e pela prostituição (Jz.8.24-27). Sansão venceu milhares de filisteus, mas foi derrotado por uma mulher (Jz.16.19).

As tentações de Cristo foram o teste inicial do seu ministério. Tendo vencido, sua autoridade foi legitimada. Ele poderia então falar abertamente contra o pecado, pois ele mesmo tinha sido tentado, mas não pecou. Nós também, embora tenhamos cometido muitos pecados, não estamos fadados a repeti-los. Está escrito que é possível vencer: "Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão humana; mas fiel é Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar" (I Co.10.13).

Sempre que vencemos uma tentação ficamos mais experientes. Se pecarmos, daremos exemplo para que outros pequem. Cada vez que conseguimos evitar o pecado nos tornamos mais úteis no sentido de ajudarmos outras pessoas a evitarem aquele erro.

Neste mundo, corremos o risco de cair em várias tentações. Entretanto, não podemos aceitar isso como algo natural e inevitável. Não podemos desistir da luta contra a iniqüidade. O pecado é muitas vezes expresso pela palavra "queda". Façamos, portanto, uma analogia: as crianças caem muito, mas o adultos, raramente. Paulo disse que os coríntios eram "meninos em Cristo", visto que ainda caíam nas invejas e contendas (ICo.3.1-3). Na medida em que crescemos espiritualmente, nos tornamos menos propensos às quedas, embora não estejamos impossibilitados de cair. Se cairmos, devemos nos levantar e prosseguir, sem jamais desistir de caminhar.
VI -
Jesus passou por diferentes tentações e foi vitorioso. As que nos sobrevêm também são variadas. Elas mudam de pessoa para pessoa. Alguns são tentados pelo dinheiro, outros pelo sexo ilícito. As tentações mudam também de acordo com fatores diversos, tais como a posição social, a condição financeira ou mesmo a faixa etária. O que representa estímulo para o jovem, pode não atrair o idoso (II Tm.2.22). A tentação do solteiro é diferente daquela que o casado enfrenta. Em momentos diferentes da vida, passamos por testes distintos.

Podemos comparar essa variedade aos diferentes lugares onde Jesus foi tentado: no deserto, no templo e no monte. Cada local nos traz uma série de reflexões:

Tentação no deserto - nas necessidades - questões íntimas e pessoais - envolve o que sentimos.

Essa parte nos lembra a história de Israel. Aquele povo, quando saiu do Egito, foi para o deserto. Ali passou por várias tentações e cometeu muitos pecados. Jesus foi colocado em lugar semelhante para vencer onde Israel fracassou. As duas histórias se tocam porque, em Mateus 4.4, é citado o texto de Deuteronômio 8.3, que se refere aos israelitas. No deserto, muitos morreram por causa da tentação do alimento (Num.11.31-35). Eles tiveram dificuldade para compreender que "nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus". Jesus venceu naquele lugar árido, ficando apenas 40 dias onde Israel permaneceu por 40 anos.

Cristo esteve sozinho no deserto, até que chegasse o tentador. Deserto é lugar de solidão, desconforto, privação, dificuldade e sofrimento. Tudo isso pode ser propício à tentação. Naquele local, torna-se difícil até o suprimento do desejo mais simples e da necessidade mais básica. Cada um de nós tem o seu deserto para atravessar.

Quando algo nos falta, a tentação surge. Isto é ainda mais forte quando se trata de alguma coisa que já tivemos, já experimentamos, mas perdemos. Foi o caso dos israelitas, quando se lembraram das comidas egípcias (Num.11.4-5). A perda, mesmo que seja de algo legítimo e bom, abre espaço para as tentações (Jó 1).

Deserto é lugar de tribulações e cada uma delas tem uma tentação implícita. Isto fica claro na carta à igreja de Esmirna (Ap.2.10) e na história de Jó. Cada ataque satânico sobre a sua vida tinha o propósito de levá-lo à dúvida, à incredulidade, à murmuração e à blasfêmia. Quando se diz que "em tudo isso Jó não pecou" (1.22), fica evidente a tentação oculta e a conseqüente decepção do Diabo.

No deserto, no encontro consigo mesmo, ocorrem as tentações íntimas, os pecados secretos e as crises de identidade. Jesus não entrou nesse processo pecaminoso, mas esta foi a tentativa de Satanás ao dizer: "Se tu és filho de Deus..." A identidade de Cristo estava sendo questionada.

Tentação no templo - a religiosidade - nas relações com Deus - envolve o que cremos.

O Diabo conduziu Jesus ao pináculo do templo, em Jerusalém, de onde sugeriu que ele se atirasse para que os anjos o amparassem. Por mais incrível que pareça, Satanás pode conduzir alguém a um templo, ao lugar sagrado, não para adorar a Deus, mas para provocá-lo ou tentar usá-lo. São as tentações do contexto religioso, envolvendo falsas interpretações bíblicas, heresias, religiosidade destituída de santidade e atos de presunção que se parecem com atos de fé. É o caso daqueles que buscam a Deus apenas por motivos pessoais, materialistas, egoístas, e não para fazerem a vontade do Senhor, ou ainda dos que se valem da crença para o engano e a exploração do seu semelhante.

A proposta de se lançar e ser amparado pelos anjos é muito sutil porque parece incentivar uma experiência sobrenatural com Deus. Contudo, como observou o Pr. Caio, seria algo comandado pelo homem e não pelo Senhor. Satanás tenta conduzir as pessoas a uma espiritualidade invertida, onde o ser humano toma o lugar de Deus. Esta é uma categoria de tentação que envolve principalmente aqueles que adoram o verdadeiro Deus ou dizem adorá-lo. O Diabo não estava se referindo a um falso deus, mas ao verdadeiro (Mt.4.5). Desse modo, sua astúcia se torna perigosamente eficiente, pois muitos se mostram receptivos quando o assunto se refere ao verdadeiro Deus e quando a bíblia é citada. Entretanto, temos ali o exemplo de uma verdade nos lábios do inimigo, sendo deturpada para fins malignos.

Jesus não se deixou enganar, mas quantos são iludidos desse modo! Satanás citou a palavra de Deus, que se encontra no Salmo 91.11, assim como usou a palavra do Senhor na tentação do Éden: "Foi assim que Deus disse"?

O texto bíblico foi usado pelo Diabo para um propósito totalmente contrário àquele que se encontra no livro de Salmos. Os anjos de Deus são enviados para o livramento dos servos do Senhor, mas não quando eles mesmos se atiram de um edifício. Isto seria suicídio.

A forma como Satanás usa e interpreta as Escrituras dá a entender que Deus estaria a serviço do homem, sendo obrigado a agir quando este determinasse. Eu pulo e Deus é obrigado a enviar os seus anjos ao meu socorro? É uma forma absurda de usar a bíblia, embora não seja difícil encontrar pessoas que a utilizem assim, como se pudessem determinar o que Deus deve fazer.

Jesus foi conduzido ao pináculo do templo. Esta é a tentação dos lugares altos, das altas posições religiosas. A religiosidade não impede nem restringe as investidas malignas. Pelo contrário, elas adquirem um disfarce de espiritualidade e acabam causando grandes danos.

Enquanto que, na primeira tentação, Jesus venceu citando a palavra de Deus contra a palavra do Diabo. Agora ele precisou citar a palavra de Deus contra uma interpretação errada dessa mesma palavra. Tentações do segundo tipo exigem um preparo maior que a primeira, mais conhecimento e sabedoria.

Ao dizer "Lança-te daqui abaixo", o inimigo desejava assistir a queda de Cristo, assim como ele mesmo havia caído do céu. Contudo, seus planos foram frustrados. Quando ele nos tenta, seu desejo é que sigamos pelo caminho de desgraça que ele mesmo trilhou.

Tentação no monte - poder humano e vanglória - nas relações com o próximo - envolve o que vemos.

Novamente, o inimigo levou Jesus aos lugares altos. As posições elevadas são favoráveis às tentações. Os reinos do mundo mostram o poder humano sobre o seu semelhante. A busca por tais posições de autoridade e/ou fama pode desviar da rota aqueles que deviam buscar o reino de Deus e a sua justiça. Jesus estava sendo tentado a mudar seu plano de vida, deixando de caminhar em direção à cruz, passando a buscar a glória humana pelas mãos do Diabo.

Aquela foi uma proposta de suborno e corrupção. É a típica tentação que ameaça o político, o líder, o governante, ou aquele que almeja tais condições. Muitos se vendem para lá chegar, sacrificando valores morais e abrindo mão da vocação espiritual. São atraídos pelos reinos deste mundo.

Não significa que a vida pública seja abominável. A abominação está na negociação com Satanás para se alcançar o poder e a riqueza.

No caso de Jesus, nada disso lhe interessava. Sua missão era estabelecer o reino dos céus, conforme se vê no tema de sua pregação naquele mesmo capítulo (Mt.4.17).

Nas primeiras tentações, era preciso imaginar o resultado e o benefício prometido. Na tentação do monte, bastava olhar a pompa dos reinos. A visão exerce forte influência sobre as decisões humanas. O inimigo explora bastante esse sentido físico. Jesus recusou tudo aquilo que ele via para alcançar o reino dos céus, cuja plenitude ainda era invisível e futura. A fé prevaleceu.

Cristo recusou a oferta do maligno. Todavia, alguns anos mais tarde, com o seu sangue derramado na cruz, ele conquistou todo o poder e autoridade nos céus e na terra (Mt.28.18). Entretanto, precisou esperar o tempo certo e a maneira correta.

Nos últimos dias, essa conquista se tornará visível, pois Jesus reinará sobre a terra durante mil anos (Ap.20.1-6), regendo todas as nações com cetro de ferro, pois ele é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores (Ap.19.15-16; 12.5; Salmo 2).

Então, o sétimo anjo tocará a sua trombeta, e vozes no céu proclamarão:

"Os reinos do mundo se tornaram de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos" (Ap.11.15).

VII -
Jesus era orientado pelo Espírito Santo, mas, como nós, tinha seu direito de escolha. Quando foi conduzido ao deserto (Mt.4.1), Cristo não resistiu ao Espírito (At.7.51), nem tentou adiar aquela experiência. Ele poderia ter escolhido, naquele dia, outra atividade, outra direção, como Jonas fez, mas deixou-se levar pelo condutor divino, sendo fiel e obediente.

A vida cristã consiste em deixar-se guiar pelo Espírito Santo (Rm.8.14). Para isso, é preciso um nível de relacionamento tal com ele, que possibilite o reconhecimento da sua voz (At.13.2) ou dos seus sinais. Algumas vezes, sua orientação pode ser tão discreta que não a percebamos imediatamente. Pode surgir como um desejo, uma idéia, uma aparente intuição, ou um arranjo circunstancial.

No deserto, haveria o encontro com o tentador. Jesus não evitou o confronto. Ele não fugiu. Muitos crentes procuram manter distância, quando um demônio se manifesta. O que fariam então diante do próprio Satanás?

Cristo enfrentou porque estava preparado. Não tinha cometido nenhum pecado. Estava bem seguro de sua própria identidade, de seu poder e autoridade. Além disso, ele vinha cumprindo tudo o que estava determinado para a sua vida e ministério. Não tinha porquê recuar. Até aquele momento, ele havia se enchido do conhecimento da Palavra de Deus, aprendendo no templo e na sinagoga desde a sua infância. Vivia em comunhão com o Pai e, recentemente, passara pelo batismo nas águas. Estava cheio do Espírito Santo e acabara de fazer um prolongado jejum.

E nós? Estamos preparados para enfrentar o inimigo? Como está nossa condição espiritual? Se formos de qualquer maneira, poderemos ser esmagados. Por isso, o apóstolo Paulo adverte no sentido de tomarmos toda a armadura de Deus (Ef.6.10-18), afim de que possamos resistir ao Diabo (Tg.4.7). Quem não vai à guerra é covarde. Quem vai desguarnecido torna-se um alvo fácil.

Muitas pessoas não se preparam porque acham que ainda é cedo (Ag.1.2; João 4.35). Quando Jesus tinha 12 anos de idade, ele já estava aprendendo a Palavra de Deus (Lc.2.42), ainda que a tentação no deserto só fosse acontecer aos 30. Se chegasse lá sem as condições necessárias, não haveria tempo hábil para consegui-las (Mt.25.10). Se ele não conhecesse bem as Escrituras, não teria chance de procurar os versículos apropriados, mesmo porque ninguém andava com os rolos do Velho Testamento debaixo do braço.

Além do campo das tentações, também precisamos de preparação e coragem para enfrentar outros desafios e responsabilidades que a vida nos traz. Não podemos viver fugindo, evitando ou adiando indefinidamente.

A infância e a juventude são épocas adequadas para que a pessoa se prepare para as decisões e atividades da vida adulta. Os pais podem e devem ajudar nesse processo. Por exemplo, o vestibular, o casamento e a profissão são desafios previsíveis para os quais o jovem deve se prevenir. Alguns precisam estar preparados também para o exercício do ministério. Em todas estas áreas existem crises, oportunidades e tentações específicas.

Jesus resistiu, ficando firme diante das investidas diabólicas. Ele não cedeu um só milímetro. Podia ter negociado com Satanás, chegando ao meio termo, transformando pelo menos uma pedra em pão ou aceitando um pequeno reino dentre todos os que lhe foram apresentados. Não! Estavam em jogo valores espirituais eternos e inegociáveis. Não podemos trocá-los por recompensas terrenas, imediatas e temporais.

O Diabo quis atingir o corpo de Jesus, na questão do pão. Quis afetar seu espírito, na citação da palavra. Tentou iludir sua alma, oferecendo posição, poder e glória humana.

Depois da resistência veio a repreensão. Jesus disse: "Vai-te, Satanás, porque está escrito: ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele darás culto. Então o Diabo o deixou..." (Mt.4.10-11). Nós também não somos obrigados a ficar ouvindo por tempo indeterminado o que o Diabo tem a nos dizer. Jesus tinha coisas mais importantes para fazer. Então, usou sua autoridade e repreendeu o inimigo. O Mestre nos autorizou a fazer o mesmo: "Em meu nome expulsarão os demônios" (Mc.16.17).

Além de resistir aos poderes das trevas, recusando suas ofertas, precisamos ordenar que eles se retirem da nossa presença, da nossa casa, do nosso local de trabalho, etc.

Por quê o Mestre não o repreendeu logo na primeira tentação? Se ele assim o fizesse, sua resistência não teria sido provada. No nosso caso, repreendemos o mal assim que reconhecemos a sua presença (At.16.16-18). Não precisamos esperar mais. Nesse ponto, é provável que já tenhamos passado por várias tentações.

Quando o Diabo foi embora, vieram os anjos e serviram a Cristo (Mt.4.11). Nem só de tentação vive o filho de Deus. Após os combates que enfrentamos, o Senhor nos dá momentos de refrigério, descanso, recompensa e paz.

Os anjos participam também da nossa vida. Eles são ministros de Deus ao nosso favor (Heb.1.13-14). Isto não significa que possamos dar-lhes ordens ou apresentar-lhes nossos pedidos. Isto seria uma oração, e só podemos orar a Deus. É ele quem dá ordens aos anjos para agirem em nosso benefício (Salmo 91.11).

O episódio das tentações termina com uma nova experiência sobrenatural, mas isto só aconteceu porque Cristo enfrentou, resistiu e repreendeu Satanás. Se assim fizermos, também teremos experiências gloriosas com Deus.
VIII -
Está escrito que Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo (Mt.4.1). Logo, ele não estava perdido ou sem direção. Mesmo no deserto, não ficaria desorientado. Sua vida tinha alvos bem definidos, um planejamento preciso e específico. Assim também acontece com os filhos de Deus hoje, a não ser que resolvamos andar por nossos próprios caminhos.

Jesus foi fisicamente sozinho para o deserto. Ele não podia mandar outra pessoa para representá-lo nem levar sua família ou amigos. Ninguém poderia ajudá-lo naquele momento, pois se tratava de um desafio pessoal. O Pai e o Espírito Santo não tomariam decisões no lugar do Filho.

A vida espiritual é assim, e muitos momentos da vida natural também se caracterizam pela solidão que envolve as decisões e escolhas individuais. São responsabilidades intransferíveis. O deserto e a cruz não podem ser terceirizados. Afinal, também não vamos querer que alguém receba, por procuração, nosso galardão.

Durante a infância, os pais decidem praticamente todas as coisas no lugar dos filhos. Alguns crescem e querem continuar naquela cômoda posição de receber tudo resolvido e mastigado. Entretanto, a vida adulta exige que cada um tome suas próprias decisões. O filhote precisa sair do ninho e aprender a voar.

No relacionamento com Deus e no confronto com o Diabo, as decisões humanas também são individuais. O pastor, por mais amoroso que seja, não pode resolver os desafios de cada membro da igreja. Pode aconselhar, mas não decidir. Nenhum cristão pode descansar no conhecimento bíblico do seu irmão. Nenhum soldado pode ir à guerra sem treinamento, confiando na habilidade dos companheiros. Embora possamos ajudar uns aos outros, chega o momento em que cada um enfrentará o seu deserto particular. Então, será testado seu próprio conhecimento, sua fé, seu compromisso e fidelidade. Por isso, é de fundamental importância a preparação.

Por exemplo, quando o jovem cristão entra na faculdade, enfrenta ataques intensos e precisa decidir por si mesmo. Então, fica evidente se ele foi bem formado na igreja ou não; se ele investiu em sua estrutura espiritual, ou não.

Daniel, foi levado cativo para a Babilônia e ali, no palácio de Nabucodonozor, longe dos pais e mestres, teve a oportunidade de tomar decisões que fizeram dele um dos maiores nomes do Antigo Testamento. Daniel orava e evitava o pecado, não porque alguém mandava, mas por sua própria decisão.

A solidão do deserto cria oportunidade para o pecado secreto. Afinal, ninguém está vendo. Se não tem quem possa ajudar, também não existem testemunhas. Se Jesus transformasse pedras em pães, quem ficaria sabendo? Porém, a realidade do mundo espiritual é tão concreta que não nos permite pensar que aquele pecado pudesse ficar oculto. Afinal, a solidão de Cristo era apenas física e aparente. Assim como Satanás estava ali, o Espírito Santo também estava, pois foi ele quem levou Jesus ao deserto (Mt.4.1). O Pai também estava presente com o Filho (João 8.29). Os anjos também estavam por perto (Mt.4.6,11). Aquele episódio estava repleto de participantes, embora só Cristo tivesse um corpo físico.

Logo, a tese do pecado secreto é uma ilusão humana. Por outro lado, fica demonstrado que a solidão também é apenas aparente. Não estamos sozinhos ou desamparados no deserto. Estamos muito bem acompanhados, exceto pela presença do maligno.

Os filhos de Deus precisam se concientizar da presença divina em todas as situações. Não estamos abandonados. Embora as nossas decisões continuem sendo pessoais, podemos contar com a consolação do Espírito Santo e a bênção do Pai.
IX -
Logo após o batismo de Jesus, ouviu-se uma voz do céu que dizia: "Este é o meu Filho amado em quem me comprazo" (Mt.3). Em seguida, veio a experiência da tentação (Mt.4). Mesmo sendo o "Filho amado", ele iria para o deserto. Não seria poupado. Isto pode parecer incompatível com o amor declarado anteriormente, mas não é.

Poderíamos perguntar: como Deus permite isso? Não apenas permite, como também dirige. Em nossas vidas, talvez questionemos o porquê de Deus permitir tantos acontecimentos ruins. Nessas horas, talvez até o seu amor por nós seja indevidamente colocado sob suspeita. Entretanto, os sofrimentos, tentações, desafios e provações são experiências necessárias em nossas vidas. Nosso aprendizado existencial não será adquirido apenas em um curso teórico por correspondência.

Cristo, na condição de homem, precisava experimentar muitas situações; precisava sentir e não apenas conhecer na teoria. Ele precisava aprender, conforme está escrito:

"Ainda que era Filho, aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu" (Heb.5.8).

Todo sofrimento permitido por Deus, sem que o tenhamos provocado, tem um propósito positivo. Não será algo inútil e improdutivo. "Sabendo que a tribulação produz a perseverança, e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança" (Rm.5.3-4).

Almejamos ser pacientes, experientes e esperançosos, mas sem tribulações. Assim, fica difícil. É como querer músculos fortes sem carregar peso.

Maturidade e experiência são frutos de desafios, escolhas e ações. Quem decide e faz torna-se mais hábil e capaz.

Naquele momento, quando Satanás abordou Jesus, o Pai não interferiu. O Espírito Santo, por sua vez, não se manifestou para responder às propostas do maligno. O Diabo tentou conduzir Jesus à provocação de uma interferência dos anjos (Mt.4.6), mas isso não era adequado. Jesus precisava decidir, responder e resolver sozinho. Era a sua vez.

Assim, em nossos momentos de tribulação e angústia, sempre queremos a interferência celestial. Oramos e aguardamos que Deus remova a tentação, mude a situação, expulse o Diabo, e tudo se resolva. Entretanto, a nossa resistência está sendo provada. Precisamos responder corretamente ao que a vida nos argüi. Depois, a ação divina nos será favorável (Mt.4.11). Na hora certa, nossas orações serão ouvidas e a situação mudará.

O amor de Deus por Jesus não evitaria o que fosse necessário e imprescindível, porque, por esse mesmo amor, o Pai visava objetivos maiores e ganhos eternos (João 3.16).

As crianças têm dificuldades para conciliar o amor dos pais com suas exigências e atos disciplinares. Contudo, ao crescerem, percebem os valiosos benefícios de tudo o que aconteceu.

Nós também, nas relações com o Pai celestial, não entendemos as lutas e dificuldades, mas ficaremos jubilosos no dia da vitória.

"Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará com cânticos de júbilo, trazendo consigo os seus feixes" (Salmo 126.6).
X -
Por volta dos 30 anos de idade, Jesus tomou uma série de iniciativas específicas em relação à vida espiritual e ao ministério. Estava na hora de ser batizado, fazer um jejum prolongado e começar sua obra, pregando, curando e escolhendo seus discípulos. Ele tinha metas bem claras e prazo determinado. Até sua morte e ressurreição já estavam marcadas, devendo ocorrer dentro de três anos, durante a páscoa.

Em nossa vida cristã, também não podemos ficar inertes. Precisamos tomar iniciativas concretas no sentido de realizarmos a nossa parte dentro dos propósitos divinos, sabendo que o nosso tempo é curto. Não podemos viver adiando decisões e realizações que se mostram necessárias e oportunas.

Estejamos certos de que a oposição satânica está de prontidão para tentar nos impedir. Seus ataques certamente vêm sobre aqueles que querem servir a Deus de modo objetivo e intenso.

Caminhos e tropeços

Tendo Cristo entrado na reta final de sua missão terrena, Satanás também tomou uma iniciativa: a tentação. Jesus tinha um caminho a seguir e o inimigo haveria de colocar tropeços diante dele (Mt.4.1-11).

O maligno oferece um caminho alternativo para se chegar ao "sucesso". A proposta é uma rota sem cruz, sem grande esforço, sem renúncias e sem sofrimento. O poder e a glória podem ser alcançados por um simples gesto de adoração (Mt.4.9). Problemas de percurso podem ser resolvidos pelos anjos (Mt.4.6). Entretanto, todo esse quadro é uma grande fantasia na tentativa de ocultar as terríveis conseqüências de decisões equivocadas, onde os valores divinos estariam sendo renunciados, a glória seria efêmera, o sofrimento seria eterno e o satanismo estaria se estabelecendo por meio de uma adoração usurpada.

O uso das Escrituras

Para conseguir seus intentos, o inimigo usa a palavra de Deus. Ele diz: "está escrito..." (Mt.4.6). Note-se quão importante é o conhecimento amplo das Escrituras para que se possa responder: "TAMBÉM está escrito..." (Mt.4.7). Assim, o mau uso de partes isoladas da bíblia é combatido através de uma compreensão geral da mesma. A espada da Palavra (Ef.6.18) foi usada naquela batalha entre Jesus e Satanás.

O tentador sabia que a vida de Cristo era pautada pelas Escrituras. Ele andava na trilha do cumprimento profético. Então, uma citação bíblica distorcida talvez pudesse influenciá-lo. Contudo, Jesus era guiado TAMBÉM pelo Espírito Santo. Não se tratava apenas de seguir o "script" como alguém que executa uma receita culinária. A palavra não funciona sem o Espírito e este não age fora dos princípios bíblicos. Precisamos de ambos, da palavra e do Espírito para fazermos a vontade do Pai (Ef.6.17; IJo.5.7).

A Escritura é importante. Por isso, a afirmação "está escrito" se torna tão forte. Precisamos, pois, ler e estudar a bíblia. Também nas relações naturais humanas, o que está escrito é muito valorizado. Vemos isso no uso dos contratos, leis, estatutos, cédulas, certificados, etc. Não obstante, um documento só tem importância quando se relaciona a um fato concreto. Por exemplo, uma certidão de casamento só tem valor se o relacionamento conjugal existir. Assim também, as Sagradas Escrituras só têm eficácia na vida daqueles que têm um relacionamento vivo com Deus. A letra não é um fim em si mesma e não pode ser usada fora dos propósitos divinos, como Satanás tentou fazer (Mt.4.6).

Identificando os espíritos

A experiência de Cristo, descrita em Mateus 4, nos mostra quão necessário é o discernimento espiritual. O Espírito Santo leva Jesus ao deserto para ser tentado. Isto parece mau, mas é uma direção divina. Depois, Satanás o conduz ao templo para ter uma experiência com os anjos. Isto parece bom, mas é ruim. Em nossas vidas, situações desse tipo podem ficar confusas para a nossa mente.

Cristo foi tentado a realizar coisas que talvez não consideraríamos pecaminosas: transformar pedras em pães, provocar a ação angelical ou assumir o governo dos reinos do mundo. De fato, o erro primordial estaria em seguir a orientação de Satanás e adorá-lo. O pecado pode ocultar-se sutilmente atrás do aspecto aparente das ações humanas, mesmo as de cunho religoso. O problema está nas motivações, nos propósitos e nos meios utilizados.

Precisamos, portanto, de um relacionamento mais íntimo com o Pai celestial para que não sejamos enganados. O mundo espiritual não pode ser avaliado pela aparência de seus resultados visíveis. As pessoas são muito influenciadas por manifestações de poder sobrenatural e isso acontece em muitas religiões. Contudo, é preciso saber qual é a essência moral (ou imoral) que se oculta em tais situações. Se os milagres acontecem, mas o pecado não é combatido e o nome de Jesus não é engrandecido, então estaremos diante de uma manifestação maligna com aparência de bondade.

O testemunho

Se Jesus estava sozinho no deserto, como sua experiência foi escrita por Mateus? Certamente, o Mestre contou aos seus discípulos tudo o que lhe ocorrera durante a tentação. A narrativa foi passada adiante, de modo que chegou também ao conhecimento de Lucas, que não era um dos apóstolos (Lc.4). Jesus contou também a respeito do jejum que fizera. Afinal, o jejum deve ser discreto, mas não significa que seja um segredo inexpugnável.

Cristo compartilhou detalhes de alguns momentos íntimos, pois haveriam de ser úteis para os seus discípulos. Assim, tudo foi escrito para que chegasse até nós o conhecimento daquilo que ele enfrentou e venceu, pois também haveríamos de enfrentar muitas tentações neste mundo. Também podemos vencê-las, pois "basta ao discípulo ser como seu Mestre" (Mt.10.25).

Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.
Professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil
e do Sebemge - Seminário Batista do Estado de Minas Gerais

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